quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Um pouco de amor

"We two boys together clinging", 1961, de David Hocney - BBC


Anthony Giddens ao falar sobre o amor, faz uma distinção entre o amor apaixonado e o amor romântico, e caracteriza o primeiro como marcado por uma urgência que o coloca à parte das rotinas da vida cotidiana, com as quais ele tende a conflitar. O envolvimento com o outro é invasivo – tão forte que pode levar o indivíduo, ou ambos, a ignorar as suas obrigações habituais. O amor apaixonado tem uma qualidade de encantamento que pode ser religiosa em seu fervor e é especificamente perturbador das relações pessoais, em um sentido semelhante ao do carisma; arranca o indivíduo das atividades mundanas e gera uma propensão às opções radicais e aos sacrifícios. Sob esse aspecto, o amor apaixonado representa um perigo para a ordem social. Sua qualidade de quebra de rotina e de dever que o colocou à parte das instituições existentes.
Giddens lembra que na Europa pré-moderna, a maior parte dos casamentos eram contraídos sobre o alicerce da situação econômica. Entre os mais pobres significava um meio de organizar o trabalho agrário. As diversas formas de afeição física eram raras entre os casais casados da França e Alemanha no século XVII.
Somente entre os grupos aristocráticos, a licenciosidade sexual era abertamente permitida entre as mulheres “respeitáveis”. A liberdade sexual acompanha o poder e é uma expressão do próprio poder; em certas épocas e locais. Nas camadas aristocráticas, as mulheres eram suficientemente liberadas das exigências da reprodução e do trabalho rotineiro para poderem buscar o seu prazer sexual independente. Evidentemente, enfatiza, isto jamais esteve relacionado ao casamento. Tanto que a maior parte das civilizações parece ter criado histórias e mitos que carregam a mensagem de que aqueles que buscam criar ligações permanentes devido a um amor apaixonado são condenados.
Giddens cita um estudo de Niklas Luhmann onde a diferenciação entre a sexualidade “casta” do casamento e o caráter erótico ou apaixonado dos casos extraconjugais era absolutamente comum entre outras aristocracias, além da européia. Específica da Europa era a emergência dos ideais do amor intimamente relacionados aos valores morais da cristandade.
O amor romântico, que começou a marcar presença a partir do final do século XVIII, incorporou elementos do amor apaixonado, mas tornou-se distinto deste. O amor romântico introduziu a idéia de uma narrativa para uma vida individual – fórmula que estendeu radicalmente a reflexividade do amor sublime. Contar uma história é um dos sentidos do “romance”, mas esta história tornava-se agora individualizada, inserindo o eu e o outro em uma narrativa pessoal, sem ligação particular com os processos sociais mais amplos.
O início do amor romântico coincidiu mais ou menos com a emergência da novela: a conexão era a forma narrativa recém-descoberta. Seus ideais inseriram-se diretamente nos laços emergentes entre a liberdade e a auto-realização.
Para Giddens , o complexo de idéias associadas ao amor romântico pela primeira vez vinculou o amor com a liberdade, ambos considerados como estados normativamente desejáveis. O amor apaixonado tem sido sempre libertador, mas apenas no sentido de gerar uma quebra da rotina e do dever. E teria sido esta qualidade do amour passion que o colocou à parte das instituições existentes. Os ideais do amor romântico, ao contrário, inseriram-se diretamente nos laços emergentes entre a liberdade e a auto-realização.
Nas ligações de amor romântico o elemento do amor sublime tende a predominar sobre aquele do ardor sexual. O amor rompe com a sexualidade, embora a abarque; a virtude começa a assumir um novo sentido para ambos os sexos, não mais significando apenas inocência, mas qualidades de caráter que distinguem a outra pessoa como “especial”. Seria um processo de atração por alguém que pode tornar a vida de outro alguém mais “completa”
Para Giddens , o amor romântico tornou-se distinto do amour passion, embora ao mesmo tempo possuísse alguns resíduos dele. O amour passion jamais foi uma força social genérica da maneira que tem sido o amor romântico, desde o final do século XVIII até períodos relativamente recentes. Junto com outras mudanças sociais, a difusão de idéias de amor romântico estava profundamente envolvida com transições importantes que afetaram o casamento e também outros contextos da vida pessoal. O amor romântico presume algum grau de autoquestionamento: como eu me sinto em relação ao outro? Como o outro se sente a meu respeito? Será que os nossos sentimentos são “profundos” o suficiente para suportar um envolvimento prolongado?
Diferente do amour passion, que extirpa de modo irregular, o amor romântico desliga o indivíduo de situações sociais mais amplas de uma maneira diferente. Proporciona uma trajetória de vida prolongada, orientada para um futuro previsto, mais maleável; e cria uma história compartilhada que ajuda a separar o relacionamento conjugal de outros aspectos da organização familiar, conferindo-lhe uma prioridade especial.
O amor romântico suscitaria a questão da intimidade. Ela seria incompatível com a “luxúria”, não tanto porque o ser amado é idealizado – embora esta seja parte da história – mas porque presume uma comunicação psíquica, em encontro de almas que tem caráter reparador. O outro, seja quem for, preencheria um vazio que o indivíduo sequer reconhece que possui, até que a relação seja iniciada. E este vazio teria, para Giddens relação direta com a auto-identidade: em certo sentido, o indivíduo fragmentado se tornaria inteiro.
O amor romântico fez do amour passion um aglomerado específico de crenças e ideais equipado para a transcendência; o amor romântico pode terminar em tragédia e se nutrir na transgressão, mas também produz triunfo, uma conquista de preceitos e compromissos mundanos. Tal amor se projeta em dois sentidos: apóia-se e idealiza o outro e projeta um curso do desenvolvimento futuro.
Se o ethos do amor romântico é simplesmente compreendido como o meio pelo qual uma mulher conhece o seu “príncipe”, isso para Giddens parece superficial. Embora na literatura, como na vida, às vezes as coisas se passem deste modo, a conquista do coração do outro é, na verdade, um processo de criação e uma narrativa biográfica mútua. A heroína amansa, suaviza e modifica a masculinidade supostamente intratável do seu objeto amado, possibilitando que a afeição mútua transforme-se na principal diretriz de suas vidas juntas.
O caráter intrinsecamente subversivo da idéia do amor romântico foi durante muito tempo mantido sob controle pela associação do amor com o casamento e com a maternidade; e pela idéia de que o amor verdadeiro, uma vez encontrado, é para sempre. Quando o casamento, para a maioria da população, efetivamente era para sempre, a congruência estrutural entre o amor romântico e a parceria sexual estava bem delineada.